domingo, 20 de março de 2011

Aponia e a Etica Epicurista/ Apatia e a Ética Estóica (por Selma Mixttura)

Em sua ética Epicuro faz uma oposição entre a vida virtuosa e a vida prazerosa. Para o filosofo a vida virtuosa não deve ser considerada o único caminho para a felicidade.  Ser bom e virtuoso é necessário, mas não suficiente, existe ainda outra condição para a felicidade, que seria antes, sentir prazer. Porém, o prazer do qual Epicuro nos fala não se refere ao deleitar-se simplesmente, ao contrário, implica em uma completa ausência de dor. Ausência de dores físicas e de penalidades, assim nos transmite o conceito de aponia. E este conceito é de suma importância para a ética epicurista, pois através dele Epicuro defende um hedonismo moderado e orientado pela sabedoria prática, onde “o conhecimento deve servir para ajudar a suprimir os temores com relação ao destino do corpo, temores estes que têm sua origem em falsas opiniões sobre os deuses, os corpos celestes e seus fenômenos, e sobre a morte”. Enquanto Epicuro acreditava ser a dor a motivo da infelicidade, para os Estóicos as paixões é que eram as causas de todos os males. A paixão é tão somente a perturbação da alma, e a Apatia, ou seja, a ausência de qualquer paixão é a verdadeira felicidade. Pois que, segundo os estóicos, o instinto de autoconservação nos leva a buscar antes o que nos preserva do que o que nos apraz. “A prova disso está de que, antes mesmo de qualquer percepção de prazer ou de dor [contrariamente ao que pretendiam os epicuristas], as crias buscam as coisas salutares e fogem das contrárias. Isso não aconteceria se elas não amassem o próprio estado e não temessem a destruição”. (Cícero, De finibus, III, 5, 16 = von Arnim, S.V.F., III, fr 182) Sendo assim, a apatia, é o que possibilita ao homem sábio tornar-se reto e forte não permitindo que as paixões nasçam em seu coração, cortando o mal pela raiz. Ainda hoje o homem busca esquivar-se da dor, e sofre com a angústia pela morte. O problema consiste em uma não aceitação do real, e em instintos reprimidos, por isso os consultórios psiquiátricos estão lotados. “A morte é angustia de quem vive”, já dizia o poeta Vinicius de Moraes. Sofremos enquanto tememos, mas, consumado o fato, o sofrimento é para os que ficam e nele meditam. Portanto o temor pela morte é uma ilusão.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

“O Ser Absoluto, o Deus do homem É o próprio Ser do Homem! (por Selma Mixttura)


 “A religião não faz o homem, mas, ao contrário, o homem faz a religião: este é o fundamento da crítica irreligiosa” (Karl Marx, 1818-1883). “Ser homem é tender a ser Deus; Ou, se preferirmos, o homem é fundamentalmente o desejo de ser Deus” (Jean-Paul Sartre, 1905-1980). “Este é o mistério da religião: o homem projeta seu ser na objetividade e então se transforma a si mesmo num objeto face a esta imagem de si mesmo, assim convertida em sujeito” (Ludwig Feuerbach, 1804-1872). Temos aqui três citações de filósofos que defendiam a idéia de ser o homem criador de Deus e não o contrário.

Segundo Marx, as concepções religiosas tendiam a desresponsabilizar o homem por seus atos. “A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, assim como é o espírito de uma situação carente de espírito. É o ópio do povo”. Esta sentença proferida em Crítica da filosofia do direito de Hegel o tornou reconhecido como crítico sagaz da religião. Porém, Marx não se ateve estritamente às questões religiosas. Basicamente, ele seguiu as opiniões de Feuerbach, para quem, a religião era apenas fruto da fantasia dos homens. Para Marx, o homem é o que é. Ele se constrói a partir do nada, tentando ser Deus, sem poder sê-lo, por isso sofre angustias e náuseas. Quanto a Sartre, este defende que “Deus não existe, e a não existencia de Deus tem profundas implicações, primeiro porque não há nenhum criador do homem”. Segundo, porque se Deus não existe, então tudo é permitido. Terceiro, porque “não há sentido algum para vida humana; a vida é absurda”.

Para Feuerbach, se a essência divina fosse diferente da essencia do homem, não haveria cisão. E a religião é uma cisão do homem com sua própria essência. Enquanto que para Marx, a religião provoca uma felicidade ilusória, e é preciso que o homem abandone essa condição de ilusão para conquistar a felicidade real. Neste sentido, Sartre acreditava que Deus não poderia resolver nada para o homem, nenhum de seus problemas, dores ou alegrias. Tudo que o homem faça, conquiste ou sofra é de inteira responsabilidade do próprio homem. Mesmo que a existencia de Deus fosse comprovada, ainda assim, nada mudaria. Portanto, a idéia de Deus faz-se totalmente absurda.

Podemos entender que a concepção de religião comum a estes três pensadores é que: a existência precede a essência. O homem projeta uma imagem de si mesmo, uma imagem perfeita, onde todas as suas limitações são superadas. Cria um Deus à sua imagem e semelhança e através dos dogmas e cultos busca esta sensação de êxtase que o contato ou proximidade com o Ser Divino e Absoluto proporciona. Mas em verdade, não existe nenhuma natureza fixa, criadora, a qual o homem deva se submeter e respeitar. Portanto o homem é livre e responsável por si mesmo. Sendo tal liberdade e responsabilidade as causas de toda sua angústia.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Teatro???... Por quê???.... Pra quê???

“Vivemos uma relação muito doentia com os meios de consumo, com a publicidade criando desejos, definindo valores. O ano inteiro o filho pede ao pai para não se esquecer de comprar a bicicleta e a margarina virou símbolo de realização familiar”. Diante do cerco, é difícil romper “a crosta de hipocrisia”, que estabelece falsos parâmetros para a observação da realidade. “Estamos mergulhados nisso, diante de uma televisão esquizofrênica, que não permite o silêncio, não pára um instante sequer e impõe hábitos”.
A partir dessas constatações compreendemos o papel social do artista e a essência do fazer teatral. “O teatro tira as pessoas de casa, obriga o deslocamento para um lugar público, para conviver em ambiente onde é possível se encontrar vivamente com o outro, sem a abstração da sala escura de cinema. É um lugar de diálogos”. Por isso ele se tornou instrumento de construção de um novo protagonista, o cidadão, que tem consciência de seus direitos. “O teatro é o grande antídoto”.
E a PLENITUDE que a atuação cênica possibilita?
Está no palco, nas coxias e nas salas de ensaio a realização de se sentir senhor de suas próprias idéias. Essa não é uma revolução pequena. “Numa sociedade terceirizada, que nos aliena da plena posse da nossa capacidade de agir, o teatro promove imensa transformação em quem o realiza”. O privilégio dessa responsabilidade, precisa ser devolvido para a comunidade em forma de espetáculos e encontros, estabelecendo nexos para diálogos intensos e sem meias-palavras.

“Paulo José”

DISCREPÂNCIA (por Selma Mixttura)

Vivemos em uma estrutura social, política e econômica que prioriza o “ter” e o “poder”, fortalecendo ainda mais a lógica capitalista. Mesmo que se empregassem todos os esforços para que a ciência e a tecnologia atendessem toda humanidade, ainda assim, seria impossível. Porque estamos diante de algo que poderíamos chamar de “efeito looping”, onde a desigualdade social leva à exclusão de conhecimentos, e na mesma medida a exclusão de conhecimentos, e assim por dizer, cultural, digital e etc., leva à desigualdade social. De acordo com o inciso I, do artigo 206, da Constituição de 1988, fica claro que a igualdade de condições se dá por duas vias: igualdade de acesso à escola e igualdade de permanência na escola. Porém, enquanto o Poder Público se preocupa em garantir a acessibilidade, na outra ponta, a permanência fica negligenciada. Assim, completar os estudos, com justiça social, não é garantido a todos.

A Unicef – Fundo das Nações Unidas para a Infância, divulgou um relatório onde alerta que no Brasil, embora a educação tenha melhorado, a situação de muitos ainda é de grande preocupação. Entre os indígenas e quilombas, por exemplo, encontramos infraestrutura inadequada das escolas, baixa qualidade de ensino, professores com formação inadequada, escolas distantes das moradias, e tantas outras questões que causam um ensino totalmente deficiente. Outra questão delicada que dificulta a permanência escolar é em relação ao transporte. Mesmo no sudeste do país, mesmo na zona urbana, faltam ações e planejamento de políticas públicas voltadas pra esta área. E a situação se agrava em outras regiões do Brasil. A própria natureza se torna um obstáculo. Um período de seca, por exemplo, deixa a navegação do Rio Solimões perigosa, e algumas escolas ribeirinhas são obrigadas a suspender as aulas.

Enquanto uma minoria detém o poder e as riquezas, milhares disputam como animais um prato de comida. Se por um lado não se polpa investimentos em nanotecnologia e outras tantas inovações, por outro lado dados divulgados pela Organização das Nações Unidas declaram que um bilhão de pessoas vivem com menos de um dólar por dia (menos de 2 reais). Dez milhões de crianças abaixo de cinco anos morrem todo ano. Enquanto, quase 100 milhões de crianças em idade escolar primária não chegam à escola.  E outro impressionante é que 800 milhões de pessoas no mundo não têm as habilidades básicas de alfabetização e 2/3 delas são mulheres, de acordo com o Banco Mundial. Segundo Rousseau “a desigualdade tende a se acumular”. Sabemos que a desigualdade social é em grande parte gerada pelo jogo do mercado e capital. Portanto, o que a sociedade em geral deve perceber é que sem um Efetivo Estado Democrático, torna-se impossível combater, ou mesmo reduzir a desigualdade social.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

CORPO OU ALMA?... (por Selma Mixttura)

Questões sobre: O que é o homem? Mundo material ou espiritual? Corpo ou alma? Permeiam a história desde a origem do pensamento filosófico. E de tanto não obter respostas ou encontrar outras que no momento seguinte são questionadas, criticadas e rejeitadas por idéias de outros pensadores, o homem está saturado. E ocupado demais para pensar.
Vêem-se hoje um turbilhão de “humanóides” consumindo e sendo consumidos. Talvez seja devido à descrença e ilusão que se apossa do ser humano, que já não é capaz de discernir o que é o “eu” e o que é o objeto material. Meu carro tronou-se uma extensão do meu corpo, e assim é com todo o resto. O homem é um ser ingênuo e iludido. Mas, o que é o homem? É um ser dotado de alma e corpo que transita entre o mundo material e espiritual conforme sua necessidade de evolução, de conhecimento da natureza e autoconhecimento.
Vivemos sim, um tempo de fugacidade denominado “contemporaneidade”.  Mas, nem tudo está perdido. O que ocorre, em verdade, é um processo de transformação, como todos os outros que já ocorreram e ocorrem na natureza, no corpo e na alma do homem.
E em meio a esta “turbulência” que o mundo e a humanidade ora atravessa, ainda há espaço para mistérios da natureza que o homem está longe de desvendar. E devido à desigualdade cultural e social, podemos ainda encontrar pessoas preocupadas com o bem do próximo e o bem da natureza. Pessoas engajadas em causas políticas e sociais. Enfim, apesar de a grande maioria mergulhar na ilusão da tecnociência, dos bens de consumo e do prazer instantâneo, a essência do ser do homem ainda prevalece e quando o ser humano exausto e estarrecido não suportar mais a própria “hibris” teremos ainda formas de resgatar a integridade do homem.